Post do marido

Mulherada, o Jorge fez questão de escrever um post, então, segue abaixo a opinião do marido.

“Aqui estou, o humilde Jorge, na condição de marido, para dizer o quão importante foi a abolição da escravatura lá em casa. Nós, os alforriados, estamos felizes. Sim, porque, neste tempo todo, descobri que nós éramos escravos da criadagem. Nós é que servíamos os vassalos, e não o contrário….

Descobri isso no dia em que a Vavá entrou na cozinha, cara de puta dentro das calças, para pegar um copo d’água para a empregada, que passava mal no quarto dela. Ali tive certeza que todos nós trabalhávamos para o povo que deveria nos apoiar…
Pensava, antes disso, que era só eu quem sofria com as dodós lá de casa. Afinal de contas, todos os dias, era eu quem preparava meu café e meu jantar – nada era deixado para este pobre trabalhador. Isso quando a rapina na geladeira não atingia até meus artigos preferidos, comprados apenas para meu deleite, como doces diet e caviar.

O Odemir (é assim mesmo), motorista, certa vez, esbaldou-se num doce de leite diet (que deve ser consumido com moderação, pois tem efeito laxativo). No dia seguinte, teve piriri. Antes, avisou que iria se deleitar apenas porque estava lá e era caro. Pagou o preço…

O almoço era outra novela. Estresse por causa da minha dieta todo dia, pois esqueciam da salada, do acompanhamento…  Acabei desistindo e abri, no meu sempre apertado orçamento, uma linha de crédito para comer fora. Era menos um probelma. O chato é que transferi  a hora de ver as meninas para continuar olhando na cara do Marcelinho e do Fábio, com quem passo pelo menos dez horas por dia… Overdose profissional, isso sim…

 
Além do problema com as minhas refeições, nada que eu “organizava ” (a bagunça é minha, chamo como quiser…) ficava no lugar. Perdi milhares de papéis, impostos e contas. Paguei juros de bobeira muitas vezes.
Isso sem contar que a Andreia sempre escolheu as empregadas a dedo. Se tinha uma bonitinha e uma horrível, adivinhe quem levava o emprego: claro, o trubufu… Podia até nem saber cozinhar um ovo, mas ela dizia que não ia “dar mole”. Isso me ofendia. Era como se eu não tivesse um par de óculos para enxergar a mulher que tenho, nem senso de ridículo para ver o quão babaca é homem que come a dodó, e sem bom gosto. Eu evito que meu perfume francês se misture com um avon desses da vida…
Eu só queria uma empregada que fizesse o básico: arroz, feijão, salada, carne, servisse o café e deixasse um rango pra de noite… Isso eu nunca tive. Paparicavam todo mundo, menos o burro de carga aqui…

 
Como eu sempre paguei e nunca tive o serviço, empregada para mim era o mesmo que largar um maço de notas no lixo, todos os meses. Mas, pelo acerto, isso saía do bolso da Andreia. Portanto, apenas reclamava, de leve. Às vezes, nem tanto. Afinal, o leão tem de rugir de vez em quando. Mas não adiantava. Era a leoa quem decidia.

 
No dia em que sugeri a mudança radical em nossas vidas, já vislumbrava que a minha iria mudar pouco. Precisaria fazer uma cama, mirar melhor na hora de mijar, não largar prato no quarto de TV e superar o meu trauma de lavar louça e roupa, adquirido no casamento anterior – essa história fica para outra vez. Como a união anterior acabou há quase de 20 anos, e como estou meio grandinho para ter trauminhas, já era hora de desafrescalhar, virar homem e encarar a proposta que mudou a minha existência de uma vez por todas.

 
Hoje acordo disposto e feliz. Ponho o meu café e o de uma das meninas, lavo a louça e me arrumo, seja para o trabalho, seja para a academia. O que aumentou? A louça e a cama arrumada (ô troço imbecil… Não vou deitar lá de novo? Pra que esticar? Pras visitas? Que visitas, se não vai ninguém lá em casa?? Enfim, faz parte do meu acordo de felicidade, então estica essa porra e vamos em frente). Só. Muito pouco. Vale a pena pagar o preço.
Quanto às saídas, isso veremos. Mas um sujeito que trabalha até 9 e meia, dez da noite não é exatamente um noctívago. Ainda mais que, como raramente bebo, não tenho motivos para ficar em bar, aturando frio até 2 da madrugada e chuva de perdigotos na cara, lançada por um amigo chapadão pela mistura de Salinas com chope da Brahma. Ficar em casa, com minha mulher, minhas filhas, meus canais de TV a cabo e, principalmente, meu Fifa 08 é bem melhor.
Agora estou indo para casa cada vez mais cedo. Até porque não preciso mais aturar o dantesco espetáculo de ver uma dodó metida numa roupa três números abaixo, com  banhas e cofrinhos à mostra, que tiravam o tesão até de um priapista. Agora, 10 e meia, no máximo estou no portão. Afinal de contas, agora é minha casa e da minha família, não dos serviçais, que mandavam e desmandavam.
Até o próximo!”
Jorge, o marido ex-sofredor

1 comentário

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Uma resposta para “Post do marido

  1. carmem aguiar

    vcs são simplesmente sensacionais ! jornalistas que sabem escrevem bem e divertir… ( vcs sabem.. tem jornalista por aí que nem escrever sabe ).
    amei o texto jorge ! isso é pra esparramar na internet e virar um blog cultura pra familias sem as ” fofas” … eu convivo bem com a minha,porque vejo ela 15 minutos por dia, quando tomo café da manhã..depois só por bilhetes… ou telefone.
    parabéns ao casal que está nos divertindo com sua saga rumo a liberdade !!!!!
    bjs
    carmem

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